Monday, December 26, 2011

And all I've got is your hand 27|12

Lord, can you hear me now?
Or am I lost?

Havia sido mais um Natal 26|12

Não sei viver. Não sei como se faz.

Havia escrito palavras e palavras, metáforas de sonhos e cantinhos idílicos ao som de notas calmas, em harmonia com tudo. O respirar era leve e cada pormenor talhado duma simplicidade purista onde cada traço era o reflexo dum projecto, dum amor, duma família.

Não sei viver com isto. Não sei como se faz.

Havia tornado tudo claro e objectivo, as metáforas eram claras e podiam ser facilmente desvendadas por uma realidade que dependia apenas da clara obediência da minha dedicação. Os atentos, esses, marcaram a minha ausência. De mim.

Não sei viver agora. Não sei como se faz.

Havia completado os 26. Era verão. E tudo morre. Foi um acidente, um acidente. Queira eu conseguir acordar, seria em vão. Que crime tão fugaz (acompanhado duma grande gargalhada ininterrupta e doentia).

Não sei viver desta forma. Não sei como se faz.

Havia chegado ao reconhecimento, à realização e à consistência da crença. Era senhor crescido e capaz, mais capaz do que alguma vez havia sonhado, mais capaz. Capaz de acreditar ainda mais.

Não sei viver assim. Não sei viver mais.

Havia sido artista, arquitecto, escritor, dançarino e actor. Havia sido atento, consciente e desajeitado. Havia sido criador, cronista e alegre. Havia sido diferente e especial. Havia sido sonhador.

Não sei mais saber querer viver, desculpem.

Saturday, September 17, 2011

où as-tu mis les doigts?

Não é quando nem como queremos. Mas provocamos.
E a responsabilidade é inteiramente nossa. Enquanto ontem era aquela pessoa livre, hoje cai sobre mim a responsabilidade dos actos e as respectivas consequências. Fui livre.
Não querendo dramatizar, o silêncio não é o fim, é o começo. Tudo começa aí. E um leopardo cai na minha boca e uma serpente detém a sua queda. O silêncio não é o fim, é o amanhecer da cor e dos animais.
Olhos que vêem, coração que sente. Com cor, ainda que em silêncio.
Amanhã havei esquecido tal notícia, amanhã já se somam os pensamentos suficientes para não mais conseguir escrever e de preferência nem sentir.
Olhos que vêem, coração que sente. Amanhã com a cor e o som ideal.
Sem rancor, erguido.

Wednesday, August 24, 2011

Wednesday, August 03, 2011

Hás-de te lembrar também 4|8

Lembrei-me do que sou e para que vim. Lembrei-me de quando morava em Paris, com aquela luz característica que a custo entrava num espaço branco de janelas altas e esguias, elegantes. Lembrei-me de ti e de nós, da pele branca e limpa, daquele toque seguido daquele olhar. Lembrei-me que o cheiro é feliz e és confortável.
Chegará o dia em que nos conhecemos, em breve, porque acabo de me lembrar do que sou e para o que vim.

Monday, July 25, 2011

sou livre 25|7

happiness, hit her like a train on a track
Coming towards her, stuck still no turning back
She hid around corners and she hid under beds
She killed it with kisses and from it she fled
With every bubble she sank with a drink
and washed it away down the kitchen sink

The dog days are over
The dog days are done
The horses are coming so you better run

Run fast for your mother run fast for your father
Run for your children and your sisters and brothers
Leave all your love and your loving behind you
Can’t carry it with you if you want to survive

The dog days are over
the dog days are done
Can’t you hear the horses
Cuz here they come

And I never wanted anything from you
Except everything you had
and what was left after that too. oh.

Happiness it hurt like a bullet in the mind
Struck from a great height
by someone who should know better than that

The dog days are over
The dog days are gone
can you hear the horses
Cuz here they come

Run fast for your mother and fast for your father
Run for your children for your sisters and brothers
Leave all your love and your loving behind you
Can’t carry it with you if you want to survive

The dog days are over
The dog days are gone
Can you hear the horses because here they come

The dog days are over
The dog days are gone
Can you hear the horses because here they come

Monday, April 25, 2011

Para ficar escrito 26|4

*e eu entrava na tua boca
*e ia desaparecendo
*e depois fechavas a boca
*e eu estava la dentro
*dentro de ti
*e estavas a abraçar-me constantemente
*eu estava dentro de ti
*n me vias
*mas sentias-me
*e eu falava ctg
*e estava sempre em ti
*e qd te queria acariciar a face
*corria até à tua mão
*e puxava-a
*até à tua face
*e tu sem perceberes
*começavas a levantar a mão
*e derepente
*era eu
*a tocar-te
*e tu sentias-me assim, dentro de ti

*so quero construir algo
*e o meu castelo
*tem que ser um castelo com muralhas fortes
*e com uma vista desafogada
*pouco presunçoso
*mas com pormenores
*daqueles que so os nossos olhos possam ver
*com pormenores minunsiosos
*e quem possa olhar
*ate pode apenas ver uma casinha
*uma relação
*duas pessoas
*quero ser uma
*dentro de ti
*a dormir nos teus olhos
*ou nas pontas dos teus dedos

Sunday, April 24, 2011

Páscoa 24|4

Tenho um aperto gigante no peito. Como se tivesse engolido o mundo inteiro e não o conseguisse digerir. Vomito-o, juro que vou vomitá-lo!

Wednesday, March 02, 2011

O início de tudo 2|3

Tu es face à une page, une page blanche, une plage blanche... mais il n’y a pas la mer et tu, peut-être, peux inventer les vagues, tu inventes une vague... C’est un murmure, c’est une vague... Tu as une idée que n’est que vague, mais c’est déjà un mouvement.

Jean-Luc Godard, Scénario du film Passion

Não estás ausente 2|3

O silêncio não é o fim:
é o princípio.
Tudo começa aí onde ninguém fala
e um leopardo cai da minha boca
e uma serpente detém a sua queda:
o silêncio não é o fim:
é o amanhecer da cor, e dos animais.

Leopoldo María Panero, Descubrimiento del animal

Tuesday, March 01, 2011

O lugar 1|3

Onde nenhum. Um tempo para tentar ver. Tentar dizer. Quão pequeno. Quão vasto. Se não ilimitado com que limites. Donde o obscuro. Agora não. Agora que se sabe mais. Agora que não se sabe mais. Sabe-se somente que saída não há. Sem se saber porque se sabe somente que saída não há. Somente entrada. E daí um outro. Um outro lugar onde nenhum. Donde outrora dali regresso nenhum. Não. Lugar nenhum a não ser só um. Nenhum lugar a não ser só um onde lugar nenhum. Donde nunca outrora uma entrada. Dalgum modo uma entrada. Sem um só além. Dali donde não há ali. Por lá onde por lá não há. Ali sem de lá nem dali nem sequer por onde.

Samuel Beckett, "Pioravante Marche"
[tradução de Miguel Esteves Cardoso, edição de O Independente e Assírio & Alvim]

Não é Divino 1|3

Há coisas que não se explicam, são intuitivas.

Wednesday, February 16, 2011

Com um sorriso 16|2

Já morri. Já perdi partes de mim. Irreversível.
Agora aprendo outras, que um dia voltarei a perder.

Wednesday, January 26, 2011

Dejá vu 27|1

«Um sonho perturba-me com uma persistência espantosa. Chama-me de volta à aldeia do meu avô. Àquela casa, onde nasci há quarenta anos em cima de uma mesa de jantar. A visão é-me tão cara que até me dói. Mas, quando quero entrar nessa casa, aparece qualquer coisa e impede-mo. Tenho este sonho com frequência. Mas quando vejo as paredes de madeira e a escuridão, sei, mesmo a sonhar, que não passa de um sonho. E a minha imensa alegria perde-se na sombra da espera do despertar. Por vezes, porém, deixo de sonhar com a casa e com os pinheiros em torno da casa da minha infância. E tenho saudades. E espero impaciente o regresso desse sonho, onde voltarei a ver-me criança e a sentir-me feliz, porque tudo está ainda pela frente e tudo será ainda possível…»

Aleksei, no filme “O Espelho” de Andrei Tarkovski.