Wednesday, May 21, 2008
Xiuuuuuuuuu 21|5
Posso rir, soltar gargalhadas aquando só e em silêncio.
Posso rodopiar num eixo, que sou eu, até me sentir tonto.
Posso emitir barulhos jamais ouvidos.
Posso ficar inerte e apático.
Posso sentir e sentir e criar e sentir.
Posso justificar tudo e acreditar em nada.
Posso observar-me no espelhado do forno.
Posso ridicularizar-me até que alguém me salve.
Posso gritar até deixar de ter forças.
Posso tocar-me e tocar-me e sentir e tocar-me.
Posso conseguir tocar o céu momentaneamente.
Posso acreditar pouco crente.
Posso arrepender-me consciente.
Posso crescer.
Posso criar e pensar, sentir e criar, posso tocar-me e sentir.
Posso rir e justificar um toque momentâneo.
Posso rodopiar-me, observar-me pouco crente.
Posso emitir barulhos ridículos e não me arrepender.
Posso ficar apático, sem força, mas tudo isto é crescer.
Friday, May 09, 2008
Limites contidos 9|5
É a boca do lobo, numa escala redobrada de insultos e dentes afiados.
Sou minúsculo e valho nada. Nem chego ao “eu”.
Quando me julgam solto sou condenado a essa própria pena. Um surto de absorção invade-me.
É um mundo viciado, a rosca passada. A dissertação de crenças por vozes porcas.
Sou sujo e o próprio energúmeno.
Quando relativo a coisa soa-me a verdades que não existem.
É a raça ansiosa por carne.
Sou matéria. Pertenço ao ciclo.
Monday, May 05, 2008
Relógio Sentimental 6|5
Tenho 79 anos, estou sentado num banco de jardim. É um jardim pequeno, o verde é abundante, existem árvores com troncos menos vincados numa expressão que sempre acompanhei.
Vivi desde sempre com especial atenção à expressão sentimentalista do tempo.
Neste banco de madeira as fendas são a marca dos sorrisos e das lágrimas, a marca sentida dum paradoxal efeito borboleta.
Sou um velho simpático e educado, visto-me bem e sinto-me diferente dos outros que têm a mesma idade que eu. As conversas não me interessam, as vidas já não as são e tudo já morreu antes mesmo deles sucumbirem.
Sou um velho que recordo a minha força desde o primeiro suspiro.
Um velho vivido para sentir, mas da forma que a vida se encarregou de me ensinar. Senti sempre tudo duma forma peculiar. Mas isso não foi suficiente para ter alguém sentado aqui a meu lado a respirar este jardim.
Percebo tudo nestas ultimas páginas da minha vida, não vim para ser de ninguém, porque me julguei sempre solto e superior a qualquer um. O que tanto amei é hoje algo que já tenho e não me faz mais feliz. Não amo.
Tenho 50 anos, acordo cedo para ir trabalhar. A casa de banho ao fundo é a que sempre idealizei. Está tudo limpo, não há barulho excepto o da rua num inicio de mais um dia da cidade agitada.
Agarro a escova de dentes e aperto a bisnaga da pasta, levo-a à boca e olho-me ao espelho. Tenho meio século e sorrio porque sou bem sucedido, sinto-me confortável na vida que construí, sozinho e triste.
Estou a dia 18 de Outubro de 2018 rodeado de pessoas queridas. Faço 33 anos e quero festejar porque mereço sentir que trabalho por um ideal que se está a tornar real. Este ano tenho sido recompensado por todo o trabalho.
Sinto-me uma pessoa interessante, tenho alguns cabelos brancos que me dão charme. Mantenho aquela irreverência de criança com menos paciência e mais requinte. Deixei-me de sair à noite para aquelas festas que pintavam o mundo de dourado. Sou um arquitecto pacato com casa própria e um carro a precisar de reforma.
A noite lá fora está fria, passei o dia a pintar os muros do jardim. Ficaram branquinhos, limpos. Bebi café com a Andreia e desabafei contradições que me incomodavam. Amanhã é o 44º aniversário da minha mãe e estou a preparar-lhe uma festa surpresa.
Não percebo ao certo como escrever isto. Nem sei bem o que quero escrever.
Imagino-me num percurso bem sucedido, imagino-me entre as paredes que sempre projectei e com o estatuto que me sinto merecedor. Mas nada disto impede que aos 50 seja uma pessoa fria e triste e que aos 79 esteja só naquele banco de jardim.
Sempre acreditei que a vida ensinar-me-ia a ser feliz. Sempre acreditei que nas ultimas páginas dum livro a estória fosse conclusiva.
Quero ser tudo isto e mais. Trabalhar apaixonado pelo que produzo. Quero viver com a vontade de vencer sem que isso nunca se desvaneça.
E o resto? Onde me encontro será certamente elucidativo. Com quem, menos certamente!